E do Fernando?

20 jul

Noite passada um casal de amigos resgatou um gato “adolescente” do telhado. O gato foi alimentado, cagou por tudo, mas de manhã cedo achou seu caminho de casa. Ficamos pensativos. Falamos sobre a bondade das pessoas, em como desenvolvemos por elas afeto em função disso. Então, brincando de “ataque” com o Gatofredo, Mauricio pergunta:
– Tu gosta do Fredo como Gato ou como Pessoa?
– Gosto do Fredo como gato e como pessoa.
– E do Fernando?
– … … … hahahaha! [Fernando…. Pessoa]
– Podiam batizar o bichano de Fernando. Fernando Gato.

No fim das contas, “isso é o que mais importa”.

19 jul

Faz uma semana que conheci um indiano num encontro bastante inusitado aqui em Cracóvia. Eu descia do ônibus com o celular na mão, procurando como chegar na casa de uma amiga e este homem se postou a minha frente, prestes a perguntar algo. Já me adiantei num “nie mówię po polsku”, mas ele falou em inglês. Pedia orientação para chegar no shopping mais próximo. Enquanto eu explicava que não conhecia a região, mas que havia um shopping a um ou dois quilômetros dali, ele media minuciosamente e sem qualquer cerimônia as proporções do meu corpo. (Parênteses para dizer que eu usava minissaia, blusa não muito justa e tênis. Contexto, não é, pessoas?!! Pois bem, retomemos!) Parecia estar executando alguns cálculos e logo cuspiria uma avaliação impressa da “adequação” das minhas proporções em função das relações entre os parâmetros de entrada.

Ele perguntou de onde eu era, curioso com o meu sotaque. Quando respondi, disse que eu não me parecia com as brasileiras que havia conhecido. Falei que as brasileiras costumam ser mais baixas, mas com isso ele também se impressionou, pois as que ele conhecia eram bem altas, modelos. Inclusive havia namorado uma. Bom, disso eu tiro… bem, nada. Não tenho a menor ideia do que ele queria dizer com isso. Mas, o show de horrores começou quando perguntou minha idade. Ao ouvir que eu tinha 37, ele seguiu mais ou menos nesta linha:
– Te dava uns 30, mas, se tu te cuidasse mais, passaria por uns 25 ou 26. Sabe? Fazer uma academia e tal — dizia olhando minhas pernas longas e finas —, sabe? Tu é bonita! Por que não usa roupas mais sexy? Não gosta de parecer sexy? Por que não usa um vestido justo e sexy?

Bem, respondi qualquer coisa, e veio a baila que tenho marido, acho que porque perguntou o que eu fazia na Polônia. Eu levava na mão uma garrafa de vinho, que serviu de pretexto para que ele continuasse a conversa, nesta cantada para lá de desastrosa:
– E este vinho? Quer dizer que a estratégia é embebedar o marido para que faça vista grossa às tuas imperfeições e se interesse por ti? Hahaha!

Sim, ele dizia essas coisas rindo, como se estivesse falando amenidades, jogando papo fora, brincando. Como se estivesse sendo bacana, pois estava me incentivando a melhorar a aparência. Tinha uma atitude positiva com as palavras, cordial, mas dizia coisas absurdas, como se as noções mais primárias de elogio não fossem entre nós compartilhadas. O mais surreal é que, dada a linguagem corporal, aquilo era uma cantada. A pior cantada do mundo.

Por fim, dei um jeito de me livrar do indiano, dizendo que precisava ir, mas não fui sem antes conceder seu pedido de amizade no facebook. Sem querer dar explicação do porquê eu não tinha interesse nesta amizade, e meio sem jeito e sem paciência, consenti. Desfaria a amizade em outro momento, mas acabei esquecendo. E eis que hoje o cara me escreve, dizendo que eu estava bem nos meus “vestidos góticos”, referindo-se às fotos publicadas no facebook, de um festival que fomos neste fim de semana. Respondi:
– Bem, não é minha roupa do dia-a-dia.
– Sim, mas você parece melhor assim. Devia usar mais frequentemente.
– Mas antes eu tenho que fazer academia, como havia me sugerido, certo?
– Sim, assim tudo tende a ficar quente como o verão dentro desses vestidos!
– Ah, eu ainda tenho que escrever sobre isso. Sobre o cara que sugeriu que eu costumava recorrer ao vinho para embebedar meu marido, de forma que ele tivesse interesse em mim.
– Ah, por favor, você me faz soar tão mal.
– Em sua homenagem, estou aqui bem contente comendo torta!
– Haha, você é uma pessoa divertida e de mente aberta, e isso é o que mais importa.

Diferentes formas de abraçar

2 jul

Mauricio ia em direção ao banheiro quando o interceptei para um beijo e um abraço, coisa que para mim tem um significado enorme! Um abraço bem dado, peito contra peito, apertado, tem significado de entrega. É algo que tem que transcorrer sem tempo. — algo paradoxal, sem dúvida, mas os sentidos nos permitem essas incoerências físicas.

Um abraço, como tem que ser, mostra a total prioridade daquela pessoa naquele instante — sem tempo, como disse!, pois o abraço não tem duração determinada; não é dado para que se acabe, não é uma ação da qual ansiamos pelo fim. Mas é fato que as pessoas não sentem e pensam da mesma forma. (Pelo menos o Mauricio não sente e pensa da mesma forma.)

Ao ser interceptado, Mauricio retribuiu o beijo e o abraço todo torto, situação sobre a qual disse indignada “- Não quero um abraço estilo Jânio Quadros!”, ao que ele respondeu “- Mas eu gosto muito do estilo Jânio Quadros.”. Não consigo deixar de rir… são muitos encantos em uma pessoa só.

HMH ou não HMH? Eis *uma* questão! (De simetria, de preconceito, de desinformação.)

25 jun

Participo de um grupo de discussão sobre poliamor e geralmente surgem questões sobre trisais. O que é um trisal? Uma unidade afetiva com três pessoas.

O trisal talvez seja a mais popular das relações poliamoristas por possibilitar a conexão mental direta com o ménage à trois (sexo a três). Veja bem: poliamor é uma relação afetivo-sexual, não simplesmente uma relação puramente sexual. Ainda assim, a conexão é direta. Dentre os tipos de trisal, o pessoal cita muito o MHM, que significa Mulher-Homem-Mulher. Há também o HHH e o MMM, obviamente, mas estes não costumam ter foco em discussões poliamoristas. Contudo, o HMH sempre dá o que falar.

Antes de entrar no mérito do HMH — e todos já descobriram do que se trata —, vou chamar a atenção para a insistência na manutenção da simetria. Quando alguém cita um trisal, não vai dizer, por exemplo, HMM, MMH. Por quê? Porque é uma relação amorosa a três, e o homem não aceita bem a ideia de ter acesso direto a apenas *uma* das mulheres. Detalhes do raciocínio que transparecem na organização da “sigla”. Mas vocês não imaginam o pavor dos homens héteros com a possibilidade de HHM ou MHH, pois isso significaria acesso direto a outro homem. Fantástico como processamos estes preconceitos na forma da escrita, em sua simetria, etc. Como eu sempre digo: não é sobre o conteúdo, mas sobre a forma. O mesmo conteúdo apresentado em formatações diferentes provoca diferentes reações e novas interpretações. Mas voltando à vaca fria! Falemos de uma discussão recente no grupo sobre a possibilidade do trisal HMH.

Como o grupo é fechado, não aberto ao público, não posso discutir as especificidades, mas posso trazer aqui o assunto em linhas gerais. Pois bem! Uma integrante direcionou uma pergunta aos homens héteros no fórum de discussão: “Supondo que sua companheira queira ter um relacionamento HMH. Vocês topariam?” Muitos responderam que sim, muitos outros responderam que não. Nas respostas negativas vieram arguições sobre amor, afeto, entrega e coisas que só “acontecem na relação a dois” — o que me faz perguntar que cargas d’água levou o indivíduo a um grupo de poliamor após um argumento tão, mas tão conservador. Contudo, dentre as obviedades que sempre surgem, houve um comentário que me chamou a atenção.

O comentário dizia o seguinte:
“Se ela quiser ter e o cara não quiser é um grande problema, pois ele não é obrigado a ceder a nenhum fetiche ou capricho dela, assim como ela não é obrigada a ficar com um homem que não realize esse fetiche ou capricho dela. Porque sim, se o cara não é BI e não curte outros homens isso nada mais é que realizar o fetiche da sua esposa, pois nessa história só ela vai sair beneficiada.”

Isso me faz pensar nas inúmeras, infindáveis e frequentes confusões que envolvem a sexualidade humana. Mais uma vez, eu tenho muito a falar sobre isso, mas aqui compartilho apenas um vislumbre do que penso. Mais uma contribuição para ajudar os leitores do Incomodativa nesta reflexão, sempre lembrando que eu posso “complicar” ainda mais, mas por enquanto ficamos com apenas esta “pepita de conhecimento”.

Este foi meu comentário:
“Eu só li o comentário pai (feito pelo Jõao) e vou dizer o seguinte: HMH pode ser bom para homens hétero, pois a sexualidade não diz apenas à prática do sexo em si, mas também à observação. O mundo está CHEIO de voyeurs e pessoas que têm prazer na ideia de compartilhar o parceiro(a) para que tenha prazer com outro(a). Voyerismo tb move relações HMH. Assim como numa MHM não necessariamente as mulheres são bissexuais. Há um espectro bem vasto de possibilidades.”

Sobre funk e cultura: um comentário no facebook.

25 jun

DESCULPE A NOSSA FALHA: Incomodativa pede perdão aos seus leitores por ter publicado por engano a postagem que segue, antes de tê-la concluído. Os leitores que recebem atualização por carta eletrônica tiveram o desprazer de ver um RASCUNHO desta postagem e perigam não mais tornar a ler blog tão desleixado. Incomodativa informa que a postagem original e inacabada foi removida e nova postagem foi feita, para garantir novo envio eletrônico de correspondência (e-carta).

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Faz quase três meses que não posto. Não é por falta de assunto, certamente.

Acho que por confusão, desnorteio. Há muita coisa acontecendo e eu precisava (preciso) de tempo para processar. Mas aos poucos vou retomando.

Hoje posto algo que surgiu no facebook e me gerou preocupação. Bem, vejam por si. Trata-se desta campanha abaixo, que anda circulando no senado brasileiro.

Sobre a campanha, registro aqui a opinião de uma professora, que disse o seguinte:

“O problema está na deturpação desse ritmo, com letras que estimulam o sexo promíscuo, pedofilia e o banditismo. Deveria ser proibido para crianças e adolescentes.[…] Não vejo o funk como um elemento de enriquecimento cultural, apenas como um reforçador da marginalidade, da exclusão e da inferiorização de uma parcela social. Acho muito triste mesmo que sendo o Brasil um país tão rico e cheio de pessoas talentosas, tenha que se conformar e até se orgulhar de ter como marca registrada sexo, carnaval e futebol. Nada tem de errado com os três, mas tudo é vulgarizado e banalizado de tal modo que os brasileiros passam vergonha inclusive fora do país. Podemos ser bem melhores, ter uma moral bem mais equilibrada, mais digna, que busque valorizar a pessoa humana.”

Mais pessoas pensam como esta professora e comentaram nessa mesma linha nesse post do facebook, de forma que usei este comentário como representativo de uma visão compartilhada por muitos. Eu tenho uma opinião que vai além do que aqui exponho, mas por simplificação e comodismo, compartilho aqui apenas a observação que fiz no próprio post. Com isso, espero apenas promover a reflexão nos leitores do Incomodativa, além de difundir algo das minhas ideologias pessoais, compartilhadas, não compartilhadas, admiradas ou não, enfim, etc. Já é! Vamos lá! ;) 

Segue o meu comentário:

“Vi comentários preocupantes aqui. Infelizmente o que comanda as críticas é o moralismo quanto à sexualidade e sua manifestação pública, artística, cultural. Isso é o que mais choca nessas pessoas. Mas não choca os relatos de marginalização social que essas músicas registram. Simplesmente o cidadão médio quer que o pobre se cale e não manche sua cultura com as mazelas da pobreza. O funk é uma manifestação das dificuldades culturais, sociais, econômicas que essa parte do povo brasileiro enfrenta. Querer calar sua expressão artística é uma atitude que reforça e dá total apoio às formas culturais de repressão e estratificação social. Pensem melhor antes de criticar um movimento cultural.”

Videoconf com a Nádia

30 mar

Na Polônia não se acha o que no Brasil chamamos de “leite integral”, mas nas caixas há informação sobre a percentagem de gordura, sendo aquele para lactentes o de maior percentagem. Eis que o Mauricio ia ao mercado e eu pedi que trouxesse leite:

Mau: Que leite tu quer?
Lu: Leite de criança. Ah! E traz banana! Só uma!!
Nádia: Por quê? É caro?
Mau: Sim… É que é muito difícil achar crianças produtoras de leite.

Bom Dia, Astolfo.

30 mar

– Luuu!!!
Astolfo te deseja um lindo dia!
Brilhe muito hoje, sua estrela iluminada!

– Lu te deseja um iluminado dia.
Brilhe muito estrela, sua linda hoje.
(É… não é fácil ser o Chico Buarque…)