Sobre Gatos

21 jun

Gatofredo queria fazer cocô, mas quase entrando na caixa de areia foi corrido pelo Gatolino, que foi imediata e fortemente repreendido por seu pai e por mim. Gatolino está forte, tem as bolas e manda no território. Gatofredo está fraco, magro e leva a vida como pode.

Logo, Gatofredo perdeu o interesse na caixa de areia e permaneceu escondido atrás do sofá, deitadinho e protegido. Um cheiro forte de merda se espalhou pela casa, e foi então que vimos o cocô embaixo da escrivaninha. — Entre a tentativa de chegar à caixa e seu destino final, atrás do sofá, ele fez um desvio de percurso, que passaria despercebido não fosse o cheiro.

‘tadinho. Pobre Fredo. Ele sabe que não pode fazer cocô fora da caixa. Foi obrigado em função de falha no sistema em prover uma sociedade gática que prime por valores sociais de equidade. Sem iguais condições, o oprimido foi obrigado ao crime, vítima do opressor e fugitivo do Estado.

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Fallet, RJ

10 fev

13 “favelados” rendidos e executados pelo BOPE. O palhaço “de bem” vai às redes sociais e apoia, grita aos 4 ventos sua paixão por Moro! (Galã da ralé “abastada”, que come sagu e arrota caviar.) O povo festeja os abusos, ignorante de que está no meio de uma luta de classes.

Neste contexto, “Está festejando? Está desdenhando meu sofrimento? Então é meu inimigo!”, e assim, aos olhos dos “favelados”, o palhaço “de bem” torna-se cúmplice dos policiais, magistrados, políticos e classe dominante, endossando os abusos, que agora serão mais corriqueiros que bala de troco nos anos 90.

As “facções criminosas” vão revidar, e o palhaço “de bem” é parte dos inimigos. Este palhaço vai se armar, pra ficar protegido. Mas ele cresceu a base de nescau, sucrilhos, granola e “leite com pêra”, e o “criminoso” vai tomar sua arma antes que ele grite “Salve Bolsonaro, Moro e a Corja Divina!”. E se gritar “Vagabundo!”, vai levar tiro.

Açúcar Normal?

27 jan

Uma amiga voltou do Brasil com um saco de balas de banana para os colegas, na maioria poloneses e ucranianos. Empolgada, apressei-me em dizer que eram maravilhosas e todos deviam provar.

Abrindo a embalagem, uma colega disse, “Mas nāo é amarelo…” Expliquei que é uma espécie de marmelada, em que se cozinha a banana com o açúcar (muito açúcar!) por horas, até ficar quase preta.

Então outro colega perguntou, “Mas é banana normal?” Respondi que era semelhante à banana polonesa (uma caturra sem gosto, vinda da Costa Rica) mas de sabor mais intenso. Adicionei que no Brasil há muitas variedades de banana e que são deliciosas. (Eles adoram frutas por aqui. Temos até um dia por mês em que a empresa distribui frutas aos funcionários. Para eles é sinônimo de abundância.)

O mesmo colega fez então uma outra pergunta: “Mas e o açúcar é normal ou feito de cana?” Eu ri, olhando seu rosto curioso, de olhos azuis e sérios, e respondi que, para mim, o açúcar normal era o feito de cana, não o de beterraba. Ele riu.

Não é direito.

7 jan

“Tirar liberdade é coisa da esquerda e não da direita”, li por aí. Isso me faz considerar que tirar a liberdade de alguém, de fato, não é direito — logo é esquerdo.

Também não é direito ser canhoto. É deveras “sinistro”. Tanto que, há não muito tempo, pais forçavam seus filhos a treinarem a direita, reprimindo seus impulsos naturais — a “destreza” da esquerda passaria a revelar-se nos momentos íntimos e privados. A direita alimenta, a esquerda limpa, se remontarmos às Índias Orientais.

Nossos índios? Estão morrendo.

Sobre quem cultiva o racismo e por que não instituímos o Dia da Consciência Branca.

22 nov

Suponha uma mãe com 3 filhos. Um deles precisa de meias, pois as que tem estão furadas. Outro precisa de reforço escolar, pois está prestes a reprovar, apesar de ser muito estudioso. O terceiro tem tudo que precisa, mas quer um videogame só pra ele. Uma mãe irracional daria meias para cada um dos três filhos, reforço escolar para cada um dos três filhos, videogame para cada um dos três filhos. Uma mãe coerente daria meias para o primeiro filho, reforço escolar para o segundo filho e ignoraria o pedido do terceiro filho. No Natal, após dar conta de todas as pendências e se ainda tiver recursos, dará um videogame aos filhos, para ser compartilhado*.

*Um belo exemplo de “comunismo familiar”.

Comerei as frutas da estação.

18 ago

Minhas reflexões do texto anterior provocaram reflexões em outros, que as compartilharam por outras vias. Decidi, então, escrever um novo texto, dialogando com alguns desses comentários e estendendo meu raciocínio ou relato, como preferirem.

Cada pessoa reage diferente a essa experiência de morar fora. Muitos ficam deslumbrados nos primeiros meses — ou primeiro ano! —, outros não aproveitam nem o primeiro mês, pois acabam se vendo numa mudança radical de estilo de vida que não conseguem suportar. Eu? Bem, minha motivação foi outra. Vim porque vim. Nunca tive vontades de morar alhures, como diria meu excelentíssimo. Tinha vontade de viajar por aí, mas não de permanecer. Bem, pouco importa! O que importa é que agora moro alhures. E os primeiros meses foram interessantes; havia muitas novidades. Alguns acompanharam minhas descobertas em lives ou posts: a caneca de café gigantesca, os pedaços gigantescos de torta, os cavalinhos de conto de fadas no centro de uma cidade medieval, etc. Mas isso é turismo. A questão toda é o dia a dia.

Levei uns meses pra entender o que significa água dura e que danos provoca. E o mais interessante é que esta é aclamada como uma das melhores águas da Europa — para beber, presumo. Aqui também tive problemas respiratórios pela primeira vez na vida, em função do smog vindo do lixo (sucata, plástico…) queimado no inverno para o aquecimento das casas dos menos favorecidos. Ter uma dieta com base em verduras, vegetais, carnes, nozes e castanhas aqui é mais difícil, e fugir do glúten é quase impossível: pratos com massa são a base da culinária polonesa. Pareço uma típica cidadã da classe média brasileira falando das dificuldades por causa do preço do pistache! Eu e meus brioches, Maria Antonieta… (OK, como sugeriu uma amiga, comerei as frutas da estação.) Mas isso leva a um ponto importante do meu argumento: sou e sempre fui classe média. E a classe média brasileira conhece abundância. Por mais que não se acredite, conhece. E por que isso é importante pro meu argumento? Porque o Brasil é o que é porque há “castas”.

Para que se possa viver bem, ao menos dentro dos regimes capitalistas de tradição, alguém vai sofrer. Neste momento quase piegas, há muitos interrompendo a leitura aos pulos, me acusando de algum tipo de infantilidade e desinformação, ou delírio, talvez. Mas é verdade. Os países recém capitalistas funcionam de forma diferente. Mas também não é só isso: as Américas funcionam de forma diferente (presumo que a África também). As ex-colônias funcionam de forma diferente! Explico.

Nas Américas, os serviços, dependendo se for no sul ou no norte, podem ser baratos ou caros, mas são eficazes, efetivos, rápidos. Um vendedor não deixa o cliente esperando sem bom motivo, pois é rapidamente substituído e perde seu emprego. Na Europa não — e eles não estão nem aí para o “servir bem”. Mas alguns vão dizer que os países do velho mundo são capitalistas há mais tempo. São nada! Eles foram, no decorrer dos séculos, muitas coisas. O que os estudantes aprendem nas aulas de história aqui vai séculos atrás. Eles, os países europeus, foram de tudo, mas só recentemente capitalistas, após as grandes navegações, enquanto que as Américas foram capitalistas por quase toda sua história. À medida que foram chegando os imigrantes, foram-se estabelecendo castas e propriedades. Jamais houve, ao menos no Brasil, um só povo. Houve muitos, todos melhores que os outros, até que os Engenheiros do Havaí resolveram largar a pérola de que há “uns mais iguais que os outros”. Pois é… Isso é capitalismo. É quando as igualdades se diferenciam.

(Mas eu sabia que o assunto era difícil de evitar divergir. Alguns estão entediados e até eu mesma não estou satisfeita com essas reflexões pela metade, a lá Frank Gallagher britânico — que aliás, é brilhante, e seria para mim um mentor, não fosse “apenas” um personagem.)

E quando as igualdades se diferenciam, os que com isso se incomodam também incomodam os acomodados. E eis que a violência no Brasil está sempre em pauta. Sim, entendo que é uma realidade, ainda mais se comparado ao resto do mundo, pois o Brasil está entre os 12 países mais violentos [Ref1]. Mas tentemos uma nova perspectiva! Como mudou a violência no Brasil no decorrer dos anos? Segundo a imprensa, vivemos um completo caos nestes últimos anos. Quando vejo os noticiários e os cidadãos brasileiros falando, penso do horror que senti quando estourou a guerra em Ruanda. Sangue nas ruas! O brasileiro se sente sitiado por criminosos; não consegue nem sequer andar pelas ruas. Uma brasileira aqui na Polônia relatou, em um almoço, que no Brasil tudo está um horror: crime, lixo e mendigos pelas ruas. Pausa! Pare e reflita. Mendigos ao lado de lixo em uma sentença. Aí pergunto: até onde vai a arrogância do cidadão-classe-média brasileiro? Ok, ok, desviei-me novamente, mas veja que este mesmo cidadão coloca crime e mendigos na mesma frase, logo, não é de se espantar a minha confusão ao falar em crime e me perder em mendigos.

Enfim, acho que é uma confusão geral isso que sentimos, vemos, lemos. E a mídia piora tudo. Por motivos escusos! Não em prol da nossa segurança. Ah, duvida? Pois saiba que o Rio Grande do Sul está mais violento nos últimos tempos, mas não mais que em 1986. Saiba também que São Paulo e Rio de Janeiro estão cada vez mais pacíficos com o passar do tempo [Ref2]. Aliás, São Paulo está bem mais pacífico. Mas então, por que de 3 anos para cá se criou a ideia de que a violência no Brasil chegou a níveis absurdos, como se fosse notícia nova? Por quê? Deixo para que reflitam.

[Ref1] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_intentional_homicide_rate

[Ref2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_taxa_de_homic%C3%ADdios

Algumas reflexões amargas

17 ago

Eu tenho me isolado. Desde que saí do Brasil pra morar na Polônia, tenho me isolado. Da casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Tenho alguns amigos, no geral brasileiros. A gente vai a restaurantes que servem a janta por volta das 7h, mas às 7h geralmente estamos no trabalho, ou voltando pra casa. Nosso horário é depois das 9h, e aí somos os últimos. Os lugares estão todos fechando. Por isso, ao contrário do que eu disse: não vamos a restaurantes. Vamos, mas pouco, muito pouco. Quase sempre jantamos em casa.

Hoje, Mauricio se alongou no trabalho e me pediu que eu fosse ao supermercado. Como eu disse, tenho me isolado. Ir ao mercado pra mim é sempre um choque. Europa, maravilhosa Europa. Na Alemanha não é diferente, já estive lá. Alemanha ou Polônia, mesma coisa. Fui num mercado aqui perto, uma quadra e meia. Entrei e vi uma nuvem de mosquinhas sobre as frutas. Elas vinham das amoras. Testei os acabates. Todos duros feito pedra. Digo, tinha um levemente macio, mas mofado em uma extremidade. Um mofo branco…

A refrigeração nesses mercados daqui é ridícula. Meu apartamento em Porto Alegre era mais frio que esses freezers. A quantidade de carne estragada comprada em pouco mais de um ano aqui supera em muitas vezes as duas décadas em Porto Alegre. O leite, em compensação, não estraga fácil, o que dá medo. Sempre que vou ao supermercado volto triste. Não tem nada fresco e de boa qualidade pra comer. Ah! Quer queijo e peixe em conserva? Sim, aqui tem e é bom. Não que seja melhor que no Brasil, a não ser pelo peixe em conserva, que é algo que não via por lá. Mas não é isso que eu comia diariamente no Brasil. Não sei o que comer aqui…

Voltei pra casa transtornada, com um pacote de carne de hamburguer pro Mauricio — que eu me recuso a comer!! — e dois pomelos pra mim. Ao menos os pomelos estavam bons. Estava transtornada pensando nessa experiência desagradável e lembrei da minha tarde — hoje eu estava de férias, tirei dois dias —, em que usei água desmineralizada pra lavar a cabeça. É uma ginástica! Compra água de galão no super e usa chuveiro de acampamento. Acho que é água para fins automotivos, mas é limpa… Bem, usei a tal da água, meu cabelo não está com a melhor cara, mas parece melhor que antes, contudo, ainda cai. Cai demais… Desde que cheguei, perdi um terço do cabelo. E eu ouço o fio caindo, quando faz “toc” na cabeça. Vários “toc, toc, toc, toc, toc” aumentando meu desespero.

Pois então, pensava na água, na volta pra casa. Pensava em como, mesmo tendo o mesmo poder de compra que antes, vivo aqui em piores condições. Mas veja bem, isso é o padrão europeu! Vivemos bem pro padrão europeu. Muito bem. Mas eu vivia melhor em Porto Alegre. A comida era melhor, os restaurantes ficavam abertos até tarde, os supermercados tinham melhores produtos, havia feira de orgânicos (que aqui não tem). Era mais fácil ser “fresco” no Brasil, ser consumidor exigente. Pensei no Zaffari. Que saudade… Aí falei com uma amiga mineira que disse que em Belo Horizonte o mercado mais popular é tipo o Zaffari, e que tem muitos outros muito melhores que o Zaffari por lá. Mas por aqui, Zaffari seria um luxo. E olha que em Berlin não vi nada superior ao Zaffari também!

Mas eu pensava na água… Vou ficar careca. Careca e desnutrida. Minha pele coça. A água dura faz isso. Tenho amigos que sofreram com dermatite por causa da água dura. Minha pele está um horror! Seca, coça e desenvolvi acne. A linha divisória da testa com o cabelo regrediu. Estou ficando careca…

Cheguei em casa e vim procurar sobre água. Queria um mapa da distribuição de água dura ao redor do mundo. Não consegui achar tal mapa no Google. Só mapas por países. Os mapas mundi (não sei o plural de mundi…) que achei falavam de outros aspectos da distribuição de água. Um deles, o que colo o link aqui, me fez lembrar de uma discussão com um ucraniano que batia o pé dizendo que no Brasil não tem nada, não produz nada, é dependente e tal, nem água tinha, e que nos EUA havia abundância de água. Eu sei, pois vi em documentário, que os EUA têm sérios problemas de água nos estados mais ao sul. Cidades fantasmas, muitas delas, abandonadas pela falta d’água, povoada por alguns cidadãos pobres que não puderam fugir, vivendo na mais completa miséria. Pois é… Mas daí o Google nos retorna imagens como esta:

scarcity-of-water-around-the-world-7-638
(Fonte: https://www.slideshare.net/chiragpahlajani/scarcity-of-water-around-the-world)

Ora, mas é uma perfeita divisão entre hemisfério norte e hemisfério sul. Quase perfeita divisão entre o que chamam “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, ricos e pobres, não fosse pela Austrália. Escassez de água no sul, ambundância no norte. Claro, eu não notei o “economic”, indicando que é escassez de água por motivos econômicos toda essa parte em laranja. Mas ainda assim, então quer dizer que no hemisfério norte não tem escassez nem física? Ah, me poupe, Google!! Como é possível que se venda essa imagem mundo afora?

Como vou argumentar com outros se a visão que se vende da América do Sul é distorcida e é comprada por todos, até por sulamericanos? Veja bem, não estou dizendo que não há problemas no Brasil, afinal, vivemos atualmente um caos político e na segurança e a distribuição de água não é uma maravilha, sim, mas e o resto? O resto não conta? O resto não vale nada? Saber que o médico polonês recomenda antibiótico para curar espinha ou dor de barriga não vale nada? Saber que medicina e odontologia no Brasil está anos-luz com relação à Polônia não vale nada? Saber que a alimentação brasileira é melhor não vale nada? E que a água no Brasil não é predominantemente dura, não dá dermatite, não faz cair cabelo, e isso? Não vale nada?