Nós duas sabemos

21 maio

Ri feliz quando vi teu nome no remetente.
Caminhando para casa, pensava que receberia um mimo de uma amiga querida.

Chorei quando vi o que me mandavas.
Foi muito mais que um mimo, tem um valor que não consigo expressar.

Sei do significado destas lembranças.
Sei que foram encomendadas, sei para quem e por que motivo.
Agora sei que encomendaste um par especialmente para mim… Gatos.

Sei o que este presente significa para ti,
E espero que saibas o que ele significa para mim.

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Cozinhando restos

18 mar

Ao sentar à mesa para jantar, comentei que não sabia se tinha escolhido o melhor requentado, pois à sua frente Mauricio tinha uma tigela funda de uma sopa de tomate brilhante, contrastando com grandes pedaços de brócolis e rodelas de linguiça. À minha frente tinha um prato de fígado de frango refogado com maçãs. Após reconsiderar minha própria escolha, disse: “Bem, mas é uma boa escolha, afinal, uma mulher grávida precisa de ferro, então, não há porquê não se preparar desde já para um possível, porém distante, futuro”. Mauricio começou a rir dizendo que alguns poderiam arguir que, para engravidar, a mulher precisa “levar ferro”. Respondi que a observação, além de grosseira, deixa brecha para esculacho: “Que ferro? Tá falando desse pau mole aí?”. Ele reforçou o comentário dizendo: “Ferro?! Tá mais pra chumbo”. Ora, “Chumbo?”, disse eu. Não sabia que chumbo era mole… Sugeri alumínio, mas Mauricio foi assertivo: “Sim, chumbo é mole, bem mais que alumínio. Dá pra rasgar com os dentes. É como eu sempre fiz”. Comecei a rir, não acreditei que ele tivesse um dia rasgado chumbo com os dentes, mas logo cogitei que ele estaria falando a verdade… Bem, esta foi a pegadinha: a dúvida que viria na sequência. Ele riu, percebendo minha desconfiança, mas logo retornou ao tópico da janta. Finalizou dizendo: “Não temos água, por isso fiz chá”.

(Sem título)

12 mar

Mauricio me comprou lenços umedecidos para limpar os óculos. Acabei de abrir o pacote e fiquei fascinada com o cheiro! Cheirei tanto o paninho que me vi num futuro delirante, agachada num canto, toda encolhida e grudada à parede, com um pano de engraxate no rosto, cheirando loló. Fiquei pensando por que o lencinho umedecido me causava tão forte impressão. Eu estava vidrada naquele lencinho, ávida por todo fragmento de cheiro que dele eu pudesse consumir. Uns minutos de angústia, lutando para entender esta fixação, e, de repente, dei-me conta: tem cheiro forte de cidreira. Cheiro de infância. Cheiro daquela planta cortante que minha avó dizia para eu cuidar com as mãozinhas. Cheiro do chá que ela fazia porque sabia ser o meu preferido.


 

Resolvi registrar aqui também a primeira versão deste texto, que levou coisa de dois minutos pra escrever contra os vinte minutos da versão cabal. Aos que quiserem comentar, façam o favor de me dizer se destruí o texto buscando melhorá-lo. Como disse um cara há muito tempo: “Perdoe-os, Pai, pois eles não sabem o que fazem”.

Versão de Folha de Pão, vulgo, “Rascunho”:
Mauricio me comprou lenços umedecidos para limpar os óculos. Acabei de abrir o pacote e fiquei fascinada com o cheiro! Fiquei cheirando o paninho pensando que poderia me viciar e um dia ser pega agachada num canto, encolhida e grudada à parede, com um pano de engraxate no rosto, cheirando loló. Fiquei pensando por que o lencinho umedecido me provocava tanto o olfato. Eu estava vidrada no lencinho. Aí me dei conta: tem cheiro forte de cidreira. Cheiro de infância. Cheiro do pequeno jardim e da cozinha da minha avó.

Fodasse!

24 nov

Sobre a morte de Charles Manson um internauta disse: “Fodasse!”. Uma paroxítona, sem dúvida. Li: “Fodásse!”. Percebendo o erro de conjugação, imediatamente o corrigi: “Segundo o Priberam, fodesse”. Agora o imagine tentando resolver o impasse: se é riograndino, pensará no pretérito perfeito de “foder”, tal como os riograndinos referem-se à foda concluída: eu fodi, tu fodesse, ele fodeu. Dificilmente pensaria que estou falando do pretérito imperfeito: “que eu fodesse”. Mas, se por um grande acaso, notasse que evitei o hífen, vindo a perceber que fiz apenas um trocadilho (quase escrevi “trocarilho”, visto o tema), fosse o internauta astuto (não parece!) ainda ficaria em dúvida sobre minha intenção: estaria eu insinuando a vontate implícita e frustrada do internauta de foder Manson? (Digo, do internauta ou de outrem, provavelmente voyeur: “Fulano queria que eu fodesse Manson, só que não rolou”.) Mas, na verdade, eu só fiz a escolha menos óbvia de “correção”, afinal, parafraseando o internauta numa paroxítona bem pronunciada: fodasse!

Imagino alguns vindo a escrutinar a conjugação de foder, segundo o Priberam, naquelas belas seções rosa-choque, que tão bem contrastam com o branco, e chegando ao imperativo do verbo. Imperativo é ordem! Imaginem este cidadão pronto para agir mas confuso sobre o sujeito e o objeto da ação, sem saber qual o seu papel na “fodeção”: “fode tu!”, “foda ele!”. Entre risos, “tu” e “ele” tentariam descobrir quem fode quem. Mas é claro que, no coloquial, presente, imperativo e outros tempos verbais confundem-se, valendo a regra: se o pronome vem após o verbo, então é objeto. (Mas faz sentido, não é? afinal, imperativo costuma ter sujeito implícito, sendo a explicitação um artifício para evidenciar a regra. Contudo, convenhamos, não sou perita em gramática, então, no fim das contas: fodasse!)

Amazonka

20 set

I follow the Трэшкультура (read: “trashcultura”) page on facebook, whose most of content is unconventional videos from Slavic countries. Here is a video about which I have opened a discussion on the page: the video. I don’t have an answer to my questions yet, but I guess the thoughts about the video are pretty good — despite I cannot verify the accuracy. I’ve just copied and pasted it below. It is lengthy, but I hope somebody reads :)


Me: This video is interesting in so many aspects. First of all, I don’t know the language, so I grasp everything by body language and try to tell the story. I would be glad to know if the story I picture has some sense in it. Somebody to talk?

A friend: let’s try :)

Me:

“Hey! Ho! Let’s Go!” :D

Well, the video begins in verses, like a chant, a witchery spell, a story. She has a hat ornate with horns, and there is focus on beauty: the human body and the nature. Thus, my first guess would be a song related to witchcraft.

Then I see a corset, which reinforces the libidinous content. And then… a horse.

She feels herself beautiful and self-confident. Dances freely while singing in a lullaby-like melody. Two young and beautiful women appear. So far, witchery is a good guess. And, once again, a horse.

The girls have long stunning hair (compatible with our imagery about seductive witches) and are self-sufficient: one drives a bulldozer (or similar). They ride a horse. And then I listen to the chorus: “Amazonka! Amazooonka!”. Well… it is a good guess that amazonka is the Slavic for amazon: a woman who rides a horse, but also mythological strong and self-sufficient women in total control of their own lives.

The old woman singing is exuberant and tries to show her beauty, making a point that feeling beautiful is something that anyone who likes themselves should feel. It is a healthy relation with the self.

One of the girls bites a juicy apple with her red lips, the dark hair and white skin to make a contrast; the old woman rides with a man, there is implicit sexual content: all witchery references. Both girls ride a horse. The old woman gets a lock of one of the girls’ hair, making also implicit they are their daughters. Then, ends with a horse.

For me, it is a fusion of mythology with witchcraft. It is about women’s empowerment, no matter the age. It is about feeling beautiful, self-confident, self-sufficient, powerful, seductive and healthy in a clear feminin context. It seems to be also a means for teaching her daughters these lessons. It is about not being ashamed of aging, but embracing it.

So, how does it sound? :)

Thanks for accepting tutoring my self-challenge! :D

Lapso

3 ago

Ainda havia dois ou três dedos de leite no caneco; eu não sabia. Levantando da cadeira em direção à pia, peguei o caneco e o entornei. Esqueci que precisava engolir para continuar entornando sem transbordar de leite a boca. Esqueci que era assim que funcionava. Por sorte, a imagem do meu rosto e corpo sendo lavados por uma torrente de leite veio como um flash, instantes antes. Engoli às pressas, sem saber o que fazer com o fluxo que agora se interrompia. De alguma forma, o caneco esvaziou. Não escorreu uma gota.

E do Fernando?

20 jul

Noite passada um casal de amigos resgatou um gato “adolescente” do telhado. O gato foi alimentado, cagou por tudo, mas de manhã cedo achou seu caminho de casa. Ficamos pensativos. Falamos sobre a bondade das pessoas, em como desenvolvemos por elas afeto em função disso. Então, brincando de “ataque” com o Gatofredo, Mauricio pergunta:
– Tu gosta do Fredo como Gato ou como Pessoa?
– Gosto do Fredo como gato e como pessoa.
– E do Fernando?
– … … … hahahaha! [Fernando…. Pessoa]
– Podiam batizar o bichano de Fernando. Fernando Gato.