Eu não acredito em acidentes que parecem estética e gramaticalmente arquitetados.

Um erro ortográfico tem menor potencial de prejudicar a compreensão que um erro gramatical, tal como concordância e pontuação. Veja bem, não sou uma grammar nazi. Sei o Português como uma leiga, gosto do uso coloquial, conjugando segunda pessoa como terceira e usando pronomes nos lugares “errados”, e às vezes teimo em usar regras ultrapassadas, anteriores ao acordo ortográfico de 2009. Contudo, esta reflexão sobre o estrago que um erro gramatical faz em comparação com um mero erro ortográfico veio de uma crítica que recebi.

Em uma discussão, um internauta descreditou meu argumento dizendo que, na Internet, ninguém se importa com pontuação. Isto não é verdade, obviamente. Há pessoas, como eu, que vivem da Internet e que precisam se fazer entendidas, logo, pontuação correta é fundamental. Me preocupa, contudo, a visão que alguns têm da Internet como terra sem lei. Acredito que a eliminação da pontuação das leituras as torna rasas e reproduzem falácias e até fake news. Bem, vou contextualizar com a discussão que levou a esta reflexão. Um internauta chamado “André Luis” postou uma foto sua sem camisa e fazendo pose de fortão. Essa foto tinha uma saudação que motivou o seguinte diálogo:

  • André Luis: “Saudações! Europeus brancos na Europa!”
  • Greenman: “De fato. E brasileiros pardos no Brasil. Fiquem aí!”
  • André Luis: “Quem disse que eu sou brasileiro e pardo?”

Deste diálogo, que virou meme, muita gente resolveu que Greenman era tão nazi quanto André Luis. Sua conta no Twitter foi banida e isso foi tomado como prova de que Greenman é neonazi. Lembrando que eu mesma já tive conta temporariamente banida por meus discursos feministas, e vi muito neonazi passar batido sob o argumento de “liberdade de expressão” — é uma frustração enorme denunciar e receber este argumento. O fato é que ser banido não é prova. E a página que postou o meme foi incapaz de me prover o conteúdo completo de onde saiu este recorte, tendo inclusive falhado no profissionalismo ao tentar me intimidar com expressões do tipo “você vê pelo em ovo”, minimizando minha opinião ao usar o vocativo “moça”, dizendo que só faltava “desenhar” para que eu entendesse.

O que eu tiro deste recorte é o seguinte:

  • André Luis: “Saudações!” — ouça grilos aqui, pois tem que ter uma grande pausa –, “Europeus brancos na Europa!”, sugerindo que este é o lugar de europeus brancos, tendo o tom de ordem, de imperativo: fiquem na Europa.
  • Greenman: “De fato.” — sim, faz sentido que europeus brancos (ou de qualquer cor) estejam e fiquem na Europa –, “E brasileiros pardos no Brasil. Fiquem aí!” — insinuando que André Luis é pardo, portanto a saudação neonazi é ridícula, mas o principal é “Fiquem aí!”, expressão na qual o imperativo foi explicitado (ao contrário do imperativo na fala de André Luis, que é acidental em virtude de má pontuação), reforçando a concordância expressa em “De fato”. Ou seja, a expressão de Greenman é propositalmente redundante, fazendo-me crer tratar-se de um gozador sobre o qual a índole não se pode afirmar.
  • André Luis: “Quem disse que sou brasileiro e pardo?” — mostrando que não entendeu a gozação.

Entendo que Greenman é um gozador. Do que ele escreveu não dá para concluir que é um “neonazista aleatório”, como sugeriu a página Historical footage Made in Brazil e muitos de seus seguidores. Na minha leitura, seu objetivo foi esculachar André Luis, primeiro pelo erro de pontuação (pois queria dizer “Saudações, europeus brancos na Europa!”), depois por se achar superior — coisa que muito brasileiro tem feito declaradamente mundo afora. Chamar André Luis de pardo pareceu ter simplesmente a função de provocá-lo, e o “Fique(m) aí!” tem a função de reforçar o imperativo (iniciado com a concordância: “De fato.”) em réplica ao imperativo acidental feito por André Luis, para que Europeus ficassem na Europa.

Em suma, não há como, deste meme, dizer algo sobre a índole de Greenman. Pode ser simplesmente um gozador que resolveu dar um respostaço para um neonazi brasuca — que foi como eu interpretei, dado o fato de que ele se apegou bastante aos detalhes estéticos e gramaticais da fala de André Luis –, como também pode ser o caso de ser mesmo um neonazi, e toda essa genialidade na resposta cuidadosamente arquitetada, tanto estética quanto gramaticalmente, tenha sido simplesmente acidental. Eu não acredito neste tipo de acidente. Mas… enfim, não há como ter certeza da índole de Greenman.

 

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Categorizado como Variados

Por Lu

Uma pessoa incomodativa.

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