O Poço: Uma Análise

O Poço (“El Hoyo”, 2019), de Galder Gaztelu-Urrutia, é um filme que tem dividido opiniões. A nota do público no IMDb e no Rotten Tomatoes é 7/10, mas, neste último, a nota dos críticos é pouco acima de 8/10. O que minha experiência me diz é que, geralmente, o público entende de Horror muito mais que a crítica, que, via de regra, despreza este gênero cinematográfico. Entretanto, apesar de próximas, a nota da crítica foi maior que a do público, e isto me diz o seguinte: este não é um filme de Horror.

O filme é dividido em três atos, correspondentes às interações do protatogonista, Goreng, com seus interlocutores, os coadjuvantes Trimagasi, Imoguiri e Baharat, respectivamente. Divido, então, esta resenha de acordo, como segue.

Trimagasi

A primeira cena mostra um violinista muito motivado e um senhor compenetrado inspecionando a comida gourmet de uma cozinha também gourmet, provavelmente digna do melhor restaurante de Paris. Na sequência aparece uma cela do “Poço”, onde acordava nosso protagonista, Goreng, desorientado e um pouco surpreso. Era seu primeiro dia. O Poço consiste numa espécie de prisão vertical, escura, cela sobre cela, cujo centro é atravessado, diariamente e de cima a baixo, por uma plataforma móvel, absolutamente coberta por um luxuoso banquete — ao menos é assim que a plataforma deixa o andar Zero em sua jornada.

Goreng e Trimagasi estão no andar 48 e, neste ato, são explicadas várias “obviedades” por intermédio de Trimagasi e seu bordão: “Óbvio!”. É neste ato que são explicadas as questões estruturais que regem a dinâmica do Poço, cujo objetivo, segundo Trimagasi, é comer. Seus ocupantes são classificados como: “os de cima, os de baixo e os que caem”. Ao perguntar quem são os do andar logo acima, Goreng ouve de seu companheiro de cela que são “os de cima, óbvio!”. Isto explicita a despersonalização das relações inerente ao sistema, focando em seu aspecto estrutural e impessoal. Na mesma lógica, Goreng é repreendido por Trimagasi por falar aos de baixo.

Sem mais o que fazer além de esperar pela chance de comer, os personagens se conheciam, compartilhando o que os levou ao Poço. Goreng alistou-se e ali estava porque desejava parar de fumar e ler Dom Quixote. Ao fim de 6 meses, seria solto e receberia um diploma de conclusão, atestando sua experiência no Poço. Nisto vemos a ironização das relações de trabalho contemporâneas e do conceito de mão de obra qualificada, atualmente mensurada por diplomas e certificações no currículo. Por sua vez, Trimagasi conta que está ali por causa das “pequenas coisas”. Comprou uma faca “Samurai”, que era maravilhosa e mudaria sua vida, mesmo que antes jamais tenha sequer cortado um tomate. Após receber a Samurai, viu nova propaganda anunciando a “Samurai Plus”, que, além de tudo, afiava-se com o uso. Irritado e sentindo-se traído, jogou a TV da janela e matou um imigrante ilegal, que “nem deveria estar ali”… Pois bem, cada “prisioneiro” tinha o direito de trazer um objeto consigo para o Poço. Goreng trouxe Dom Quixote. Trimagasi relata entre risos que trouxe a Samurai Plus, o que mostra que tinha plena consciência dos efeitos da mídia sobre si, afinal, mesmo sentindo-se traído, rendeu-se ao consumismo comprando uma nova (e melhor) faca. Resta saber o que influenciou sua consciência ao usar de “retórica” para atribuir ao imigrante ilegal a culpa pela sua própria morte. A mídia? A ascensão do ultranacionalismo e dos governos neofascistas?

Dia após dia, a estrutura em que vivem é reforçada. Não há espaço para idealismo, preocupação com o próximo, consciência de classe; apenas resignação. Trimagasi mijou na comida enquanto a plataforma descia. Ainda fora de sintonia com este sistema, Goreng grita desesperado ao ver um corpo cair pelo fosso: “Ninguém vai fazer nada?!”, mas o que haveriam de fazer? Em uma sociedade fortemente estruturada, em que a falta de protagonismo é sua marca, é “óbvio” que não havia o que fazer. Trimagasi critica esse idealismo, dizendo que Goreng é o cara que pularia se estivesse acima, mas não teria o estômago necessário quando abaixo. Em resposta, Goreng pergunta o que houve com seu parceiro anterior no andar 132, onde a comida não chegava. Apropriando-se de seu bordão, acrescenta “óbvio que você esqueceu do quinto mandamento”, insinuando em tom de reprovação que Trimagasi o teria matado para alimentar-se. Nisto, desce com a plataforma, Miharu, a assassina. Segundo Trimagasi, mês após mês, antes de descer a procura de seu filho pequeno, Miharu mata seu parceiro de cela, na esperança que no próximo mês tenha a sorte de ser alocada com seu filho na mesma cela.

Em meio a este choque de realidade, Trimagasi pergunta se Goreng acredita em Deus. A pergunta é motivada pelo cheiro do gás que usam para fazê-los dormir, indicando que no dia seguinte acordarão em outro andar. Goreng devolve a pergunta a Trimagasi, que responde: “Este mês, sim” (acredita em Deus). De fato, o andar 48 comparado ao 132, o anterior, era uma chance de redenção. Mas a pergunta dizia mais respeito ao futuro incerto que lhes esperava.

Eis que Goreng, amordaçado e amarrado à cama, acorda no andar 171 aos gritos dos vizinhos acima e abaixo, alguns se atirando no fosso para a morte imediata, desesperados pela certeza de um mês inteiro de inanição. Estes compõem a terceira classificação social: “os que caem”. Trimagasi explica ao companheiro imobilizado que irá jejuar por uma ou duas semanas, até que não consiga mais resistir à fome e se sinta obrigado a cortar lascas de sua carne. Assim, Goreng será mantido vivo por respeito, mas também por ser mais novo, mais saudável, mais forte, capaz de alimentar a ambos e viver até o próximo mês, quando talvez sua sorte melhore. Trimagasi acrescenta: “Não sou assassino, sou alguém que tem medo. Não tenho prazer nisso”. Na sua visão, há 340 pessoas acima deles que são culpadas antes dele mesmo pela situação em que ambos se encontram.

Após alguns dias, sem forças nem mesmo para ler, Trimagasi resigna-se da situação e anuncia ser chegada a hora de cortar uma lasca da perna do companheiro. Em seu idealismo, Goreng grita que a culpa da situação e sua eventual morte é única e exclusivamente de Trimagasi, que não poderia sequer culpar as circusntâncias, quanto mais os 340 acima. Entretanto, em meio ao procedimento “cirúrgico”, Miharu desce com a plataforma, ataca Trimagasi e solta Goreng, que acaba por matá-lo num assomo de raiva. Assim, em menos de 3 minutos a cena inteira teve seu argumento e seu desfecho, com o idealismo de Goreng posto em xeque. Sucedeu, então, o seguinte. Enquanto é alimentado por Miharu com a carne de Trimagasi, Goreng alucina um diálogo com o morto. “Comer ou ser comido?”, pergunta Trimagasi. “Você me fez assim”, diz Goreng, justificando sua ação em função das circunstâncias, algo que antes havia criticado acerca do companheiro. “Não, eu estava indefeso e você não mostrou misericórdia. Não me tratou com o mesmo respeito […] Somos a mesma coisa. Assassinos. Mas eu sou mais civilizado.”, argumenta Trimagasi. Goreng não aguenta e pede que se vá. Trimagasi nega o pedido dizendo: “Eu pertenço a você e você a mim.”, destacando outro momento de religiosidade. Este argumento do roteirista é encerrado quando Goreng insiste que se vá, pois “Falar me cansa”, frase típica de Trimagasi.

Minutos antes do desdobramento da cena anterior, que fecha o primeiro ato, aparecem os cozinheiros, ajudantes de cozinha, violinistas, todos reunidos em silêncio, observando com gravidade a indignação do inspetor, que encontrou um fio de cabelo na panacota; algo terrível!, inadmissível. Dado o relatado sobre a estrutura do Poço, das relações entre classes, da despersonalização do indivíduo, esta cena bota em pauta os exageros da administração e sua falta de conexão com a realidade, como veremos no próximo ato.

Imoguiri

No dia seguinte, Goreng acorda na cela 33 com Imoguiri e Ramsés II, seu cãozinho, que vira motivo de chacota, pois será facilmente comido. Durante os primeiros minutos de conversa, esclareceu-se que ela já o conhecia, pois foi a funcionária da Administração a entrevistá-lo para admissão no Centro Vertical de Autogestão (CVA), como a Administração preferia chamar O Poço. Tal qual Goreng, Imoguiri talvez tenha sido a outra única pessoa a se voluntariar para uma temporada no CVA — mais uma idealista em processo de transformação. Ao tomar conhecimento disto, ele pergunta se ela não sabia que estava mandando pessoas para a morte, mas ela entende que as tragédias ali dentro acontecem porque o sistema ainda não entrou em equilíbrio. Segundo Imoguiri, há 200 andares no CVA e há comida suficiente para todos, desde que comam apenas o necessário. Ele diz que não é fácil, e ela retruca que não é fácil nem ali, nem lá fora, “mas eventualmente algo tem que acontecer no CVA; algo que estimule um senso de solidariedade espontânea”. Goreng pára um instante para analisar o vocabulário técnico empregado na argumentação: “CVA?” (Centro Vertical de Autogestão); “solidariedade espontânea?”. Transbordando o idealismo aparente nas ações da Administração, ele lança um olhar crítico dizendo: “Foi por isso que criaram este buraco?! Mudanças jamais acontecem espontaneamente”. Imoguiri diz, “Talvez por isso que você esteja aqui.”

Com o passar do tempo, Goreng aprende mais sobre a estrutura do Poço sob a perspectiva da Administração. Sabe que há 200 andares, sabe que não são admitidos menores de 16 anos (portanto, a história da assassina estaria mal contada), sabe que a administradora acredita no potencial do sistema de se autogerir. De fato, Imoguiri tem um plano: instruir o andar 34 para que prepare duas rações, como as que ela preparou para eles, para o andar 35. Essa ração diária seria suficiente e, se replicada, todos comeriam e o sistema entraria em equilíbrio. Goreng traz em pauta, novamente, o objetivo da Administração: “Solidariedade espontânea?!”; diz que talvez o objetivo seja justamente achar um jeito de fazê-la aflorar no CVA para que descubram como inibi-la lá fora. Imoguiri se aborrece com a teoria de conspiração, que reflete um sentimento comum de que a Administração estaria permanentemente trabalhando contra o cidadão. Neste momento, a personagem torna-se “procuradora” dos interesses governamentais em uma discussão com o espectador que transcende ao domínio do filme. Vemos o idealismo de alguém que trabalha (há já 25 anos) para o governo, que acredita que conhece a estrutura e crê nas leis que regem o sistema, que vê no governo o interesse genuíno de promover desenvolvimento e bem-estar social ao cidadão. Esta mensagem sublinha uma outra verdade, a verdade da Administração, em contraste com a verdade do “prisioneiro” (ou do povo).

Contudo, o idealismo de Imoguiri começa a cair por terra ao fim de duas semanas. Ela teve enormes dificuldades em fazer seus vizinhos abandonarem a experiência pungente da fome em virtude de um ideal social que lhes impunha sacrifício extra pelo bem do coletivo. Após dias, a situação resolveu-se quando Goreng, oferecendo sua solidariedade à causa da companheira e imbuído da simplicidade e pragmatismo de Trimagasi, ameaçou cagar por toda a comida, de forma que não chegasse ao 34 um único grão de arroz livre de merda. “Funcionou…”, o efeito deste discurso causa surpresa em Imoguiri, ao que Goreng responde, “Óbvio”, marcando o bordão do companheiro que, em outro momento, havia mijado na comida dos vizinhos. Com isso, o aprendizado de Goreng estava em curso e o de Imoguiri havia iniciado. Ao dar-se conta que merda é mais efetiva que solidariedade espontânea, Imoguiri começa a rever seus conceitos à luz da experiência. Ainda idealista, contudo, pede que Goreng tente convencer aos de cima, ao que ele responde: “Não posso cagar pra cima”. Esta constatação cai pesada sobre ela e os espectadores, reforçando o sistema fortemente estruturado dessa sociedade e a falta de perspectiva de mudança. Afinal, como tornar horizontal um “poço vertical”? Parecia não haver solidariedade suficiente capaz de fazer essa mágica. O idealismo caía.

Miharu, a assassina, é o artifício de narrativa usado para a transição. Ela aparece ferida e fica com eles; durante a noite, mata Ramsés II, o que leva Imoguiri ao total desolamento. Após a assassina ir embora, referindo-se ao tempo em que trabalhou de recrutadora para o CVA, Imoguiri diz que, nos últimos 8 anos, mandou gente pro inferno e não sabia. A isto adiciona, indignada: “A que idiota ocorre trazer um livro pra cá?!”. Certamente ao mesmo tipo de idiota ao qual ocorre trazer um cãozinho, uma bicicleta ergométrica ou dinheiro — Sim, aqui ela também faz a autocrítica; eram ambos idealistas e ignorantes da situação, em comparação com a esmagadora maioria, que trazia para ali armas. Desiludida, Imoguiri mal come. Goreng honrou a companheira e fez 2 pratos para os colegas da cela seguinte, mas logo estariam em um novo andar, sujeitos à sorte.

No dia seguinte, ocupavam o andar 202 e Imoguiri havia se enforcado. Como funcionária da Administração, ela sabia que ali havia 200 andares, mas o desolamento da experiência concreta de acordar em um andar impossível, acompanhado da certeza de que abaixo seguiam-se muitos outros, visto que os olhos se perdiam no infinito ao inspecionar o fosso, fez com que seu mundo caísse. Isto botou em xeque todas as suas crenças no sistema. Goreng acorda e encontra a companheira morta. Teria sido mais simples se atirar no fosso, mas ela quis lhe deixar seu corpo; que comesse de sua carne e cagasse uma merda redentora: “solidariedade ou merda” — ele delira assistindo à argumentação de Imoguiri e Trimagasi. “Beba meu sangue, coma minha carne e viverá eternamente e eu em ti”, e mais uma vez a religiosidade do momento é sublinhada, é o que os une.

Goreng não se rendeu imediatamente. Escolheu comer seu livro. Após alguns dias, não resistiu mais: pegou um caco de vidro que usava para registrar os dias na parede da cela e cortou lascas de Imoguiri.

Baharat

Este é o ato final do filme. Aqui, Goreng acorda no andar 6, aos gritos de seu novo parceiro de cela, Baharat, dizendo que quer sair daquele inferno. Ele está falando aos de cima — algo reprovável segundo os ensinamentos de Trimagasi — e deseja que o ajudem a escalar para que consiga, eventualmente, alcançar o andar Zero e sair do Poço. Durante essa negociação de ajuda, surge mais uma vez a questão da religiosidade, motivada pela referência ao inferno. “Acredita em Deus?”, “Sim”, responde Baharat. “Mas em qual Deus acredita”, perguntam os de cima. “No Deus verdadeiro”, ele responde. Zombeteiro, o homem acima endereça à sua mulher ,”O mesmo (Deus) que nós, querida!”. Eles consentem em ajudá-lo segurando a corda pela qual subiria. Quase no destino, o homem de cima caga na cabeça de Baharat, que cai mas é salvo por Goreng, que observava atento.

Acredito que, aos perspicazes, esta cena complementa de forma sucinta e contundente um argumento antigo, consistente, porém de baixa penetração, que é a posição do negro na sociedade. Sim, Baharat é negro e sofreu uma das humilhações mais insuportáveis que poderia sofrer do ponto de vista simbólico das relações racistas arraigadas em nossa sociedade. Esta cena é um apelo ao espectador. Um apelo ao seu senso estético e a conexão deste com seu senso de justiça social. É um convite para o repúdio de tudo que represente a degradação do humano, típica do racismo. Note que Baharat nem deveria estar falando aos de cima, assim como o imigrante ilegal não teria sido morto se não estivesse ali, como ensinou Trimagasi com retórica calcada em seu realismo ingênuo, típico do cidadão comum e conveniente aos cínicos. Sem dúvida, um assunto atual.

Retornando à questão da religiosidade, agora num viés messiânico, Goreng recorda uma conversa com Imoguiri, na qual argumentava que mudanças não ocorrem espontaneamente, ao que recebeu como resposta que talvez fosse por isso que ele estivesse ali. Embuído de heroísmo, Goreng pede a Baharat que o ajude a descer, pois levarão comida até o último nível e, assim, quebrarão “a máquina”. A este arroubo idealista, Baharat responde que o Poço não é uma máquina, é apenas um poço, uma prisão, mas ainda assim consente e se rende ao idealismo do companheiro.

No andar anterior, sem comida e sem parceira, Goreng teve tempo para calcular quantos andares de fato teria o Poço. Calculava que seriam por volta de 250. Com isso, seu plano era descer com Baharat protegendo a mesa e impondo, por meio de força, 1 dia de jejum a todos os andares entre o deles até o andar 50. A partir do 51, preparariam e distribuiriam duas rações por andar, conforme o plano inicial de Imoguiri. Mas eis que encontram um velho sábio que aprova a intenção mas reprova o método. Segundo ele, “a educação vem primeiro”. Ao seu ver, eles deveriam evangelizar de andar em andar, vender a ideia, dialogar. Se não fossem bem sucedidos, poderiam usar de violência, mas não sem antes tentar o diálogo. Bem, esta é a abordagem preferida dos intelectuais ao redor do mundo, afinal, são cavalheiros, são idealistas, são inteligentíssimos, mas também são ingênuos, pois a ingenuidade também vem da falta de experiência prática ancorada em muita experiência teórica. Ele traz, contudo, uma importante reflexão: “Quem lá em cima vai saber que vocês sucederam?”.

Quando o Sábio recebe a resposta de que a Administração saberá que sucederam, responde indignado que a Administração não tem consciência! Sugere que preservem e levem de volta a panacota, oferecendo-a como prova de êxito aos funcionários do andar Zero. É interessante que o sábio tenha trazido para a discussão a imaterialidade da Administração, que é um conceito, uma abstração, em contraste com a concretude de seus funcionários, conscientes e orientados por razão e ações. Adicionalmente, a escolha da panacota indica o alinhamento ideológico entre o sábio e os que trabalham para a Administração, pois a panacota já havia sido motivo de conflito no andar Zero. Isto transparece a ideia de que Administração em si é composta por intelectuais, trazendo para a reflexão a natureza de um governo cujos cargos são ocupados por intelectuais e abastados, carecendo de representantes do povo — aqueles com a experiência concreta em contraste com a teórica.

Goreng e Baharat prosseguem em sua jornada alinhados com as orientações do sábio. Falam que representam um “movimento pacífico de protesto que mudará o fluxo de acontecimentos”. Não demora para que encontrem resistência. Uma mulher não aceita jejuar. Eles a matam, abandonam o diálogo e focam as energias em proteger a comida até o andar 51 e preservar a mensagem, a panacota. Se neste ponto o idealismo que resta está por ruir, na cena seguinte vemos sua completa aniquilação, substituído pelo duro e árido realismo da experiência empírica. Após um tempo distribuindo rações de andar em andar, encontram um jovem e um velho moribundo no andar 96, onde normalmente não chega comida. O jovem, em sua franqueza, diz que é inóquo se importar em alimentar o velho, pois ele morrerá de qualquer forma; tão logo eles saiam dali para o próximo andar, ele o matará, abrirá sua barriga e comerá o que lhe deram de comer.

Nas cenas seguintes, nossos heróis descobrem que a plataforma não pára nos andares em que seus ocupantes estejam mortos, e com isso vem o desespero de saber que os cálculos de Goreng estão incorretos; há mais de 250 andares no Poço. Alguns andares adiante, encontram Miharu sendo atacada e vêm em seu socorro, mas ela morre e eles saem gravemente feridos.

Continuam sua jornada; agora só o que importa é entregar a panacota. A plataforma segue sem parar, pois todos já haviam morrido, até que, de repente, ela pára. Baharat deduz que estão no último nível e passarão a subir rumo ao andar Zero. Mas há outra possibilidade: alguém estaria vivo naquele andar. Goreng estica-se para olhar embaixo da cama e avista uma criança; é a filha pequena de Miharu — não filho. Eles descem da plataforma, para resgatar a criança mas não voltam a tempo e a plataforma desce. Goreng grita que Baharat atire a panacota, caso contrário a cela esquentará até os cozer ou esfriará até que congelem, segundo as regras do Poço. Mas Baharat está muito apegado à perspectiva da liberdade iminente, de forma que lhe é impossível desfazer-se da panacota. Como esta decisão não teve consequências, sabem que estão no último andar, não havendo ninguém abaixo que pudesse ser alimentado. Este é o andar 333 — a meio caminho do inferno. Esta referência é simbólica das agruras e dificuldades dos menos favorecidos e miseráveis em qualquer sociedade, não somente na que configura o Poço. Ou seja, a vida social em uma sociedade estratificada vertical é comparável ao inferno para os que estão nos níveis mais abaixo.

A menina está com fome e Baharat acaba cedendo; ela come a panacota. Enquanto dormem, Goreng sonha com uma mensagem enigmática, que vai mais ou menos assim, em livre tradução: “Um grande homem guiado pelo pecado, só pode ser um grande pecador. O rico que não é generoso será um sovina. O dono de riqueza não é feliz por tê-la, mas por gastá-la, e não caprichosamente, mas por saber gastar bem.” Trata-se de um trecho de Dom Quixote. Pergunto o que definia “um grande homem” em meados do século XVII. Deduzo do que se segue, e também de uma definição mais recente de grande homem que ouvia quando criança, que este seria um homem de grandes feitos, um homem rico. Portanto, a citação possivelmente trata de riqueza, da distribuição da riqueza, dos efeitos da riqueza para o rico e para a sociedade. No caso do Poço, a riqueza era temporária e medida pelo acesso à comida. Vemos aqui, então, a apresentação da filosofia regente do Poço, da Administração, do filme e, presumo eu, uma das filosofias regentes de Dom Quixote — infelizmente não li o livro.

Goreng acorda deste sonho com uma resposta: a menina é a mensagem. Neste meio tempo, Baharat morreu dos ferimentos. São apenas ele e a menina. Quando a plataforma chega no andar 333, nela eles sobem e são levados ao fundo do Poço. A menina dorme no trajeto. Não há mais andares abaixo, apenas uma escuridão, um vazio. Chegando ao fundo, Goreng encontra Trimagasi, que o convence a ficar com ele por ali, pois estaria além da salvação, e que deixasse a menina seguir seu curso sozinha até o andar Zero, pois “A mensagem não necessita um portador.” — óbvio. A cena final do filme mostra a menina em ascensão, dormindo sobre a plataforma.

Muitos espectadores pareceram especialmente desapontados com o fim, mas a escolha sobre um final feliz ou não para a menina e aquela sociedade está fora do escopo do filme, pois o filme se propõe a refletir sobre a natureza de uma sociedade estratificada tal como posta, e não a procurar soluções específicas para os problemas expostos. O conceito do filme acaba com o óbvio: de que para sair dali ninguém precisa de um tutor. Goreng, à beira da morte, precisava apenas garantir que botaria o sistema e todo seu conjunto de crenças que o alicerçavam em xeque. Por que a menina era a mensagem? Porque ela era a prova de que, independente do conceito de solidariedade que se buscava atingir dar certo ou não, uma de suas regras mais fundamentais havia sido quebrada: eles não conseguiram garantir que dentro daquele sistema não havia crianças. Isto é suficiente para refutar o experimento e questionar todo o idealismo por trás, tanto da Administração, quanto dos eruditos, dos leitores e enfrentar a realidade. É a quebra de um paradigma.

Por que Dom Quixote

Não li o livro, mas desconfiei que este não tinha sido escolhido ao acaso. Imaginei, inclusive, que teria servido de inspiração para o filme. Procurei a respeito do livro na Internet, e aqui trago minhas impressões segundo um trabalho universitário na área, escrito por Samantha Davis e que pode ser lido aqui. Portanto, tudo que aqui escrevo tem respaldo neste trabalho.

Dom Quixote conta a história de um homem delirante de meia-idade, apegado ao idealismo romântico dos livros da época (séc. XVII). Do livro originou-se um ditado famoso mundialmente, que originalmente dizia, “Por la muestra se conoce el paño”, cuja tradução moderna para o inglês é “The proof is in the pudding” e para o português, “A prova está no pudim”. Substituindo pudim por panacota vemos que há uma ligação entre livro e filme. Além disso, o protagonista, Goreng, à semelhança de Dom Quixote, também é um leitor idealista, tão desconexo da realidade que, contrariando a norma, voluntariou-se para uma temporada em um “presídio”, para o qual levou um livro, quando os outros levavam armas. Mas ele não é o único desconexo da realidade, é apenas o principal e mais marcante. Também temos Imoguiri, a funcionária da Administração, o inspetor de comida, também funcionário da Administração, e o sábio, alheio pela virtude na experiência teórica em detrimento da experiência prática — que ele mesmo tinha mas à qual não dava crédito.

Parafraseando Samantha Davis, o personagem de Dom Quixote representa todo aquele que não se encaixa na sociedade, que desafia as convenções e a conformidade, que desafia o status quo, e que acaba sendo ridicularizado pelas suas ações e crenças.

Dom Quixote começa sua jornada imaginando-se como um nobre cavaleiro preocupado com a justiça, as mesuras e a etiqueta regente da época, o que corresponde a um alto idealismo romântico. Entretanto, conclui sua jornada transformando-se em um bandido, que rouba e fere os que o contrapõem ou ridicularizam, vindo por fim a morrer desiludido, consciente do mundo em que vive. Esta transformação corresponde ao idealismo perdendo espaço para o realismo, que no fim prevalece e aniquila seus sonhos, seus ideais.

Assim, por mais que vários personagens em “O Poço” tivessem um idealismo associado a suas atitudes, Goreng é quem melhor representa Dom Quixote, pois desafiou a norma. Começou idealista e morreu vítima de seus ideais, porém lúcido e ciente da realidade a sua volta. Não tenho muito mais o que dizer além de que o livro tem agora um maior apelo, pois continua atual desde sua publicação, há mais de 400 anos.

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Por Lu

Uma pessoa incomodativa.

1 comentário

  1. Olá, Luciana!

    Excelente texto. Me fez querer assistir o filme e, com certeza, assistirei com outra ótica, a partir da análise que fizeste. Li algumas críticas sobre o filme. Em nenhum momento, observei a profundidade de análise. Gostei muito da tua conclusão, pois indica, para mim, evolução:

    “O conceito do filme acaba com o óbvio: de que para sair dali ninguém precisa de um tutor. Goreng, à beira da morte, precisava apenas garantir que botaria o sistema e todo seu conjunto de crenças que o alicerçavam em xeque. Por que a menina era a mensagem? Porque ela era a prova de que, independente do conceito de solidariedade que se buscava atingir dar certo ou não, uma de suas regras mais fundamentais havia sido quebrada: eles não conseguiram garantir que dentro daquele sistema não havia crianças. Isto é suficiente para refutar o experimento e questionar todo o idealismo por trás, tanto da Administração, quanto dos eruditos, dos leitores e enfrentar a realidade. É a quebra de um paradigma.

    Vou assistir…e ler o livro…Depois te falo….

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